O que parecia ser uma ideia absurda, o Santuário dos Elefantes, em Chapada dos Guimarães – único da América Latina – já vai completar dois anos de existência. As duas primeiras moradoras – Maia e Guida – estão saudáveis, totalmente recuperadas física e emocionalmente. Outros oito animais aguardam na fila de espera no Chile e na Argentina.

A proposta da reserva, que fica a 110 Km de Cuiabá , é servir de morada a quem sofreu maus tratos a vida toda em circos e zoológicos e agora pode curtir a natureza, com cuidados, afeto e respeito.

Maia e Guida chegaram de Minas Gerais deprimidas, em 11 de outubro de 2016. Viajaram mais de 48 horas. A princípio, apresentavam comportamento irregular, não vociferavam, se irritavam uma com a outra. Mas hoje em dia é só alegria. Voltaram a se comunicar, se alimentam muito bem, passeiam pelo cerrado – entre plantas, animais silvestres e riachos – e convivem como amigas. O que elas mais gostam de fazer é comer e brincar com jato de água.

Gilberto Leite

Santuário dos Elefantes

Norte-americano Scott Blais mora e cuida da reserva e se diz feliz com resultado do projeto

Feliz com o trabalho concretizado até agora, o norte-americano Scott Blais, 45 anos, responsável pelo santuário, afirma que não deve demorar muito para que Ramba, a próxima moradora, seja trazida do Chile. Está tudo ok, segundo ele. “Único problema é a burocracia brasileira que está atrasando a transferência”, reclama.

Assim que a licença sair, ela vem de avião do Chile até Brasília – que função! – e da Capital seguirá por chão em conteiners gigantes até a Chapada, a exemplo do que aconteceu com Maia e Guida, que também viajaram em caixotes próprios para agüentar toneladas.

Cada uma dessas elefantas quarentonas, de 40 a 42 anos aproximadamente, pesam algo em torno de 3,2 toneladas.

Como o elefante vive aproximadamente 70 anos – tempo de vida muito parecido com o do ser humano – as duas ainda têm muito para aproveitar na nova realidade.

Pocha

A mãe Pocha mora com parceiro, Tamy, e a filhote, Guilhermina, em um fosso acimentado

Na fila de espera, além de Ramba, há animais em condições difíceis. Entre eles, uma família inteira – com pai, mãe e filhote em Mendoza, na Argentina. Os três – Tamy (macho asiático), Pocha (mãe) e Guilhermina (filha) – são mantidos em um fosso acimentado. A filhote só conhece esta realidade, nasceu e cresceu ali. Quando chegar ao santuário, terá o primeiro contato com a natureza.

Também em Mendonza aguarda Kenya, uma fêmea africana, de 32 anos. Ele vive sozinha, em uma jaula, e na parede tem a pintura de um elefante, sua única companhia. “As fotos são de partir o coração”, lamenta a assistente administrativo do santuário, Cassia Motta.

Rotina

A bióloga Heivanice Sehn, de Guarantã do Norte, explica que Maia e Guida comem feno, palmeiras, capim, plantas, arbustos e árvores. No café da manhã e na janta, o cardápio é mingau de aveia, com farelo de arroz, com todos os aditivos suplementares. Tudo isso vira uma pasta, com melaço de cana. As duas não dispensam também frutas – inclusive as nativas como pitomba e graviola silvestes. Não gostam de pequi. Já  legumes e raízes amam. Comem muito, o dia todo. É brincadeira recorrente no santuário de que não é fácil manter o corpinho de toneladas delas.

Apaixonada pelo projeto, Heivanice se supreende a cada dia com a afetividade, inteligência e a memória das elefantas. Se fosse aproximar a conduta delas com a de um animal caseiro, seria à do cachorro.

Assessora administrativa, Cassia Motta, de Cuiabá, ressalta que é altíssima a capacidade de comunicação destes animais, que eles vociferam (berram), chiam (emitem canto em tom agudo), trombeteiam (emitem som similar ao de uma trombeta), roncam e ainda usam sinais.

A veterinária Laura Paolillo, do Rio de Janeiro, largou tudo por lá e veio viver essa aventura cheia de responsabilidade. Ela acompanha a saúde da dupla exótica semanalmente. Está totalmente envolvida com o projeto pelo qual se encantou. Com o marido, mudaram-se para Chapada, onde trabalham duro pelo bem estar das elefantas. “O que importa não sou eu e não é ninguém, apenas elas”.

História

Scott explica que, em 2010, teve contato pela primeira vez com os idealizadores deste projeto mas trabalhando em um santurário no Tennessee, nos Estados Unidos. Respondeu que não teria tempo e aqui também não tinha ninguém com experiência na área.

Em 2012, a ONG Elephant Voices pediu a ele um estudo da viabilidade e estava muito difícil conseguir recursos para elaborá-lo. “Só um ano depois fundamos a nossa organização, a Global Elephants, especializada em animais em cativeiros, e nos juntamos à Elephant Voices, que atua com animais na natureza”, explica.

Com o estudo, avaliaram que a legislação brasileira é progressista e o clima propício. Depois disso, iniciaram uma campanha de procura pela área, de arrecadação de dinheiro – sim, porque o projeto sobrevive com ajuda de pessoas que abraçaram a causa no mundo todo – e também de estruturação do santuário para receber os primeiros moradores.

O que era um sonho exótico virou realidade, com possibilidade de ampliação.

No mundo

Este santuário da Chapada é o primeiro da América Latina. Hoje existem três nos EUA, um está sendo construído na França e será o primeiro da Europa. Na Ásia existem outros dois.

Na América do Sul existem aproximadamente 50 elefantes vivendo em cativeiro e, destes, estima-se que 35 estejam no Brasil.

No mundo todo, atualmente mais de 10 mil elefantes vivem em cativeiro, a grande maioria na Ásia e aproximadamente 600 na Europa. Apenas 150 destes elefantes cativos vivem em verdadeiros santuários, ou seja, locais estruturados para tal.

Confira galeria de imagens de Gilberto Leite (para RD News)

Fonte: RD News